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Às mulheres, obrigada. Descobri o que é amor

  • Foto do escritor: Potlatch
    Potlatch
  • 6 de fev. de 2019
  • 4 min de leitura

Por: Yasmin Rodrigues


     Queria começar esse texto me dirigindo apenas às mulheres jovens, que estão no início do longo percurso de se descobrir mulher. É que sou uma delas. Mas nesse meio tempo percebi que as próximas linhas podem soar como um “estamos tentando” às minhas mais velhas, então peço que continuem. Nós ouvimos desde bem pequenas que não é fácil ser mulher. Sozinha, então? As filhas de mãe solteira saberão o que digo. Já vimos nossas mães chorando quietinhas sem saber como agir. E, como pode, elogiamos dizendo que elas são fortes quando não lhes restava qualquer alternativa.

Casei nova e permaneci casada durante quase quatro anos. Eduquei meu corpo muito cedo a ter com quem partilhar as angústias e as vitórias. Todos os problemas (e as delícias) de um casamento poderiam ser matéria de mais três textos como esse, mas não é meu objetivo aqui. Quero apenas dizer que me estruturei emocionalmente em conjunto. Com um homem. E o mundo masculino é realmente interessante visto de perto: cheio de peculiaridades, de modos de ser próprios e cultivados por eles. Acontece que eles não sangram mensalmente e isso significa que não experimentam sequer nossa dor mais trivial.

     Meu casamento acabou. E, com isso, a hora de dormir se tornou o encontro mesmo de mim com o travesseiro, e meu choro baixinho passou a não ser consolado e ocorreu também de ninguém me trazer chocolate na TPM. E o útero doeu mais. Apertou mesmo. A vida ficou toda bagunçada, todas as faltas (de dinheiro, de companhia, de sexo) se acentuaram. Todos os dias eu tinha desafios – porque a vida por aqui nunca foi fácil mesmo – e precisava lavar o rosto e enfrenta-los e, ao chegar em casa, lavar de novo o rosto e me preparar para o próximo. E assim passei a ouvir que era uma mulher forte.


Ilustração de Priscila Barbosa

 Descobrir a solidão não é simples e o processo talvez cause sequelas na maioria das mulheres. Eu, com toda certeza, me tornei menos aberta a encontros casuais e cervejas regadas a conversas bobas em que a cama é o destino certo. Outras, ouvi, se tornaram controladoras porque têm medo de que algo saia do prumo. É preciso dar conta de tudo, nada pode fugir, então o estado de alerta vira rotina. Além disso, vale a lembrança: estou falando de corpos cotidianamente violentados por olhares, comentários, pela mídia, por traumas. Corpos que adoecidos desde muito cedo pelo medo. Esse medo permanente de que alguém te invada ou te impeça de seguir; que alguém roube seus planos; que alguém te julgue incapaz. O medo faz parte da trajetória feminina. Não devia ter nada a ver com solidão, mas, a princípio, a solidão dá medo.

     Contei sobre um assédio que sofri pra um amigo muito querido (nos conhecemos há pelo menos dez anos!) e ele me disse: “não tem o que fazer, é assim mesmo, você chega de madrugada, tem que tomar cuidado”. Contei para uma amiga e com os olhos cheios d’água ela me disse “senti um frio na espinha”. Então, afinal, é isso: nosso útero dói mensalmente para nos lembrar quem também sente a mesma dor. Se, aos 11 anos, quando meu útero me alertou pela primeira vez, eu tivesse sido conectada aos demais úteros do mundo, talvez esse texto fosse recheado de experiências diferentes. Talvez ele nem existisse.

     Venho entendendo o que meu corpo diz (porque estar sozinha nos põe mais perto de nós) e ele grita, primeiro, que todos esses membros, órgãos, organismos vivos que me habitam também me acompanham e merecem cuidado. E eu resolvi fazer um check-up, beber mais água. Meus ouvidos passaram a querer escutar só aquilo que os interessa – e é assim que, se o assunto não me couber, eu me retiro, eu silencio, eu me respeito. Porque dói, viu? Acumular sons negativos machuca. E eu passei a querer ver mais o espelho e olhar mais pra dentro. E pela primeira vez em anos eu vi um corpo que amo. Amo porque ele inteiro é meu e tudo o que o compõe é o meu percurso.

     Eu encontro com mulheres incríveis o tempo inteiro. Esse texto vai parecer uma grande bobagem para todas as leitoras habituadas com as leituras feministas, porque elas vêm treinando o olhar há anos para esse tipo de solidariedade. Mas, eu quero dizer sobre os encontros com mulheres que jamais conheceram Simone de Bevouir. Depois de me abrir a um olhar mais doce e solidário, tenho criado pontes de afeto sincero (e real) com mulheres de todo lugar. Foi assim que, em pouco tempo, as mulheres do quiosque onde fui garçonete, recentemente, passaram a tirar a hora de almoço juntas. E, agora, já fora da equipe, recebo mensagem delas querendo um papo calcinha. É com esse mesmo afeto que precisei criar constrangimentos em um salão de beleza quando todas as mulheres do ambiente defendiam um agressor que tentou incendiar a ex-esposa.

     E é sobre esse modo de ser sozinha, que me ligou a existência de tantas mulheres, que gostaria de falar. Isso não tem absolutamente qualquer coisa a ver com ter me transformado em uma amiga imediata de todas as mulheres que encontro. Também não quer dizer que todas serão pontes para algo de bonito ou que acrescente. Mas, com certeza, eu posso dizer: amor, minhas queridas, é poder ser frágil sem que a fragilidade se transforme numa arma contra nós. E foi com vocês que pude chorar até o útero doer. E são vocês que têm sentido o mesmo frio na espinha. Obrigada.



 

*Yasmin Rodrigues é pós graduanda em direito pela UFRJ.

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 #Todas as informações e idéias expressas nos textos são de única e exclusiva responsabilidade de seus autores, este blogue não se responsabiliza pelo conteúdo destas.



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